Saindo do hostel com um tradicional atraso de hora e meia, fomos à aduana chilena "dar baixa" na nossa estada. E como todos sabem, tramitações nas aduanas do Chile são enroladas. Dá-lhe carimbar e assinar papéis. Só o passaporte não serve?
A aduana argentina fica a mais ou menos 150km dali, já em terras argentinas, no Paso de Jama. Esse foi o trajeto escolhido para a travessia andina. Uma subida "leve", que em menos de 50km te leva dos 2400m de San Pedro de Atacama para impressionantes 4900, quase 5000m de altitude. Assusta.
Saindo da aduana, paramos na estrada para lubrificar as correntes, porque fazer isso lá em San Pedro é pedir pra travar os gomos com uma argamassa de poeira com óleo. Toca em frente.
Lá em cima, GPS já marcando mais de 4700m, paramos um pouco para observar a intrigante paisagem, neve no topo das montanhas, céu límpido e frio. Efeitos da altitude se fazendo presente em todos. Tinhamos comprado alguns caramelos de coca para esse fim e os usamos. Pois lá em cima o cabra baqueia mesmo. Dá dor de cabeça, falta ar, dá tontura e as pernas bambeiam. Uma simples tarefa de sair de cima da moto já cansa. E as balinhas ajudaram a minimizar os efeitos da altitude. Como ajudaram.
Todos sentiram o efeito da altitude elevada. Nas motos, idem, até a Mamuta ficou mais lenta. Dessa vez a Angélica superou tudo sem precisar de traqueostomia (tirar o filtro de ar). Falhou, deu tiros, mas foi firme. O destaque foi a Mosquita do Sérgio. A "trezentinha", injetada, ficou bem fraquinha também, mas não jogou uma gota de gasolina fora. Subindo todo aquele tobogã, pegando vento contra nos altiplanos, trechos em segunda e terceira marchas, carregando o Serjão e sua mudança toda e a bichinha ainda assim emplacou 27km/l. Um exemplo. No outro extremo, de novo a Angélica, não mais do que 16km/l. Carburador do capeta...
Sobe, sobe, curva pra lá, curva pra cá, põe terceira, põe segunda, sobe a 60, 70, 80 com um empurrãozinho do vento. Cadê essa fronteira que não chega?!
Já tinha lido alguma coisa a respeito sobre uma emoção que se abate nos viajantes, lá em cima e na solidão. Não tinha contado isso pra ninguém, mas senti isso. Houve uma hora que a visão embaçou, mas não tinha vestígio de inseto na viseira nem poeira. Ah, eram meus olhos mareados mesmo. Pô, será que eu tô aboiolando? Ah não, de jeito de nenhum, vamos parar de melancolia barata. Ainda bem que a Angélica percebeu e largou um treme-terra pelo escapamento pra me trazer à razão de novo. Ainda bem que ninguém viu. Mas como que alguém veria isso? Quem naquela estrada? Não tinha ninguém, quase ninguém, a não ser o nosso grupo.
Demorou, mas chegamos na fronteira e na aduana argentina, em Paso de Jama, Provincia de Jujuy.
Tramitação mais rápida, passamos a fiscalização e abastecemos em um posto YPF logo na seqüência. Os frentistas argentinos fizeram uma recepção à moda, cara amarrada, rispidez, má vontade e cochichos e risos entre eles. Não deixavam nem parar a moto na sombra da cobertura do posto. Gracias, hermanos. Lanche como almoço e toca seguir adiante, que ainda tem quase 400km para chegar em San Salvador de Jujuy, a meta do dia. Saímos pra estrada de novo, a RN-52, não deu nem 2 minutos, fica o Giácomo pra trás. Cadena rompida, arrebentou a corrente da Nêga. Êta lasquêra viu! Pelo menos conseguimos voltar pro posto. Pelo menos o Gigi tinha uma emenda de reserva. Pelo menos eu tinha uma corrente sobressalente, se precisasse.
Corrente consertada, vamos em frente. Altitude estabilizada em 3500m, vêm a travessia de um altiplano andino. Retões, paisagem de montanha, aridez diminuindo, a cor verde parece querer voltar, de vez em quando um riachozinho de águas escuras, alguns povoados que não se acredita como alguém tenha vivido num lugar daqueles. Em Paso de Jama, nos avisaram que a mais ou menos 70km de lá teria 2 postos de abastecimento, um a 4 km do outro. O primeiro não tinha nafta. O segundo, num lugar chamado Susques, felizmente tinha. Dava pra prosseguir até San Salvador de Jujuy, mas era melhor prevenir. Susques é um lugar um tanto quanto pitoresco. Singular. O posto não tem cobertura. A bomba de gasolina dá até medo de encostar e pegar tétano. Deve funcionar à manivela. Melhor nem pensar na qualidade do combustível que vai sair dali... Bobeira nossa, a gasolina era boa, mas o tipo do lugar, realmente não tinhamos visto nada parecido....
Seguimos em frente e começamos a atravessar um altiplano. Algo como uma planície a 3000 e tantos metros de altitude, no meio da cordilheira. Vez por outra, cruzamos outros motociclistas viajantes que sempre nos cumprimentam. Um enorme e espetacular Salar, que o Giácomo e o Túlio foram os únicos a registrar a passagem, domina a paisagem por um tempo, depois tome mais algumas retas.
E aquela cordilheira alta pra burro se aproximando. Ah, a estrada vai passar por um vale no meio delas, não tem por onde subir tudo isso... E curva pra lá, curva pra cá, nada de vale, o cerco está se fechando. Caramba, deve ter um túnel pra passar esse paredão, não é possível! Até vermos um caminhão costeando a montanha lá em cima.... Deus nos ajude e nos empurre até lá. Novamente, coisa de uns 30 km, sai de 3mil e poucos e chega-se a 4600m de altitude, para depois descer definitivamente, pela Quebrada de Humahuaca, considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
Não há espaço para erros, foi o alerta que um caminhoneiro argentino havia nos dado. Em cada curva, uma cruz testemunha o que um desafio às leis da Física pode acarretar. E não basta as curvas estilo canivete, tem que ter pedriscos e areia também. Pedras desmoronam o tempo inteiro nas encostas. Novamente, desce-se dos 4 mil e muitos metros para 2 mil em menos de 50km. Agora é a vez dos freios trabalharem um pouco. E de os aventureiros colocarem em prática as habilidades de não deixar a moto derrapar e rolar penhasco abaixo.
Depois da descida, a estrada atravessa diversos pequenos vilarejos, com vários hotéis de alto nível. Desses, o maiorzinho parecia ser Purmamarca. Já estava anoitecendo e não havia mais como parar para tirar foto, tínhamos que chegar em S. S. de Jujuy e ainda achar um hotel, pois reserva que é bom, não fizemos pra variar. No fim da descida, grilos e cigarras grilando tão alto que ficamos achando que era algum defeito nas motos. Parei e desliguei o motor da moto, não é possível, que barulho é esse? Super-grilos no mato.
Chegamos em S. S. de Jujuy aproximadamente às 21h30, através do GPS do Álvaro encontramos um hotel legal e fomos descansar. Km aproximado do dia: 510.
A aduana argentina fica a mais ou menos 150km dali, já em terras argentinas, no Paso de Jama. Esse foi o trajeto escolhido para a travessia andina. Uma subida "leve", que em menos de 50km te leva dos 2400m de San Pedro de Atacama para impressionantes 4900, quase 5000m de altitude. Assusta.
Saindo da aduana, paramos na estrada para lubrificar as correntes, porque fazer isso lá em San Pedro é pedir pra travar os gomos com uma argamassa de poeira com óleo. Toca em frente.
Lá em cima, GPS já marcando mais de 4700m, paramos um pouco para observar a intrigante paisagem, neve no topo das montanhas, céu límpido e frio. Efeitos da altitude se fazendo presente em todos. Tinhamos comprado alguns caramelos de coca para esse fim e os usamos. Pois lá em cima o cabra baqueia mesmo. Dá dor de cabeça, falta ar, dá tontura e as pernas bambeiam. Uma simples tarefa de sair de cima da moto já cansa. E as balinhas ajudaram a minimizar os efeitos da altitude. Como ajudaram.
Todos sentiram o efeito da altitude elevada. Nas motos, idem, até a Mamuta ficou mais lenta. Dessa vez a Angélica superou tudo sem precisar de traqueostomia (tirar o filtro de ar). Falhou, deu tiros, mas foi firme. O destaque foi a Mosquita do Sérgio. A "trezentinha", injetada, ficou bem fraquinha também, mas não jogou uma gota de gasolina fora. Subindo todo aquele tobogã, pegando vento contra nos altiplanos, trechos em segunda e terceira marchas, carregando o Serjão e sua mudança toda e a bichinha ainda assim emplacou 27km/l. Um exemplo. No outro extremo, de novo a Angélica, não mais do que 16km/l. Carburador do capeta...
Sobe, sobe, curva pra lá, curva pra cá, põe terceira, põe segunda, sobe a 60, 70, 80 com um empurrãozinho do vento. Cadê essa fronteira que não chega?!
Já tinha lido alguma coisa a respeito sobre uma emoção que se abate nos viajantes, lá em cima e na solidão. Não tinha contado isso pra ninguém, mas senti isso. Houve uma hora que a visão embaçou, mas não tinha vestígio de inseto na viseira nem poeira. Ah, eram meus olhos mareados mesmo. Pô, será que eu tô aboiolando? Ah não, de jeito de nenhum, vamos parar de melancolia barata. Ainda bem que a Angélica percebeu e largou um treme-terra pelo escapamento pra me trazer à razão de novo. Ainda bem que ninguém viu. Mas como que alguém veria isso? Quem naquela estrada? Não tinha ninguém, quase ninguém, a não ser o nosso grupo.
Demorou, mas chegamos na fronteira e na aduana argentina, em Paso de Jama, Provincia de Jujuy.
Tramitação mais rápida, passamos a fiscalização e abastecemos em um posto YPF logo na seqüência. Os frentistas argentinos fizeram uma recepção à moda, cara amarrada, rispidez, má vontade e cochichos e risos entre eles. Não deixavam nem parar a moto na sombra da cobertura do posto. Gracias, hermanos. Lanche como almoço e toca seguir adiante, que ainda tem quase 400km para chegar em San Salvador de Jujuy, a meta do dia. Saímos pra estrada de novo, a RN-52, não deu nem 2 minutos, fica o Giácomo pra trás. Cadena rompida, arrebentou a corrente da Nêga. Êta lasquêra viu! Pelo menos conseguimos voltar pro posto. Pelo menos o Gigi tinha uma emenda de reserva. Pelo menos eu tinha uma corrente sobressalente, se precisasse.
Corrente consertada, vamos em frente. Altitude estabilizada em 3500m, vêm a travessia de um altiplano andino. Retões, paisagem de montanha, aridez diminuindo, a cor verde parece querer voltar, de vez em quando um riachozinho de águas escuras, alguns povoados que não se acredita como alguém tenha vivido num lugar daqueles. Em Paso de Jama, nos avisaram que a mais ou menos 70km de lá teria 2 postos de abastecimento, um a 4 km do outro. O primeiro não tinha nafta. O segundo, num lugar chamado Susques, felizmente tinha. Dava pra prosseguir até San Salvador de Jujuy, mas era melhor prevenir. Susques é um lugar um tanto quanto pitoresco. Singular. O posto não tem cobertura. A bomba de gasolina dá até medo de encostar e pegar tétano. Deve funcionar à manivela. Melhor nem pensar na qualidade do combustível que vai sair dali... Bobeira nossa, a gasolina era boa, mas o tipo do lugar, realmente não tinhamos visto nada parecido....
Seguimos em frente e começamos a atravessar um altiplano. Algo como uma planície a 3000 e tantos metros de altitude, no meio da cordilheira. Vez por outra, cruzamos outros motociclistas viajantes que sempre nos cumprimentam. Um enorme e espetacular Salar, que o Giácomo e o Túlio foram os únicos a registrar a passagem, domina a paisagem por um tempo, depois tome mais algumas retas.
E aquela cordilheira alta pra burro se aproximando. Ah, a estrada vai passar por um vale no meio delas, não tem por onde subir tudo isso... E curva pra lá, curva pra cá, nada de vale, o cerco está se fechando. Caramba, deve ter um túnel pra passar esse paredão, não é possível! Até vermos um caminhão costeando a montanha lá em cima.... Deus nos ajude e nos empurre até lá. Novamente, coisa de uns 30 km, sai de 3mil e poucos e chega-se a 4600m de altitude, para depois descer definitivamente, pela Quebrada de Humahuaca, considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
Não há espaço para erros, foi o alerta que um caminhoneiro argentino havia nos dado. Em cada curva, uma cruz testemunha o que um desafio às leis da Física pode acarretar. E não basta as curvas estilo canivete, tem que ter pedriscos e areia também. Pedras desmoronam o tempo inteiro nas encostas. Novamente, desce-se dos 4 mil e muitos metros para 2 mil em menos de 50km. Agora é a vez dos freios trabalharem um pouco. E de os aventureiros colocarem em prática as habilidades de não deixar a moto derrapar e rolar penhasco abaixo.
Depois da descida, a estrada atravessa diversos pequenos vilarejos, com vários hotéis de alto nível. Desses, o maiorzinho parecia ser Purmamarca. Já estava anoitecendo e não havia mais como parar para tirar foto, tínhamos que chegar em S. S. de Jujuy e ainda achar um hotel, pois reserva que é bom, não fizemos pra variar. No fim da descida, grilos e cigarras grilando tão alto que ficamos achando que era algum defeito nas motos. Parei e desliguei o motor da moto, não é possível, que barulho é esse? Super-grilos no mato.
Chegamos em S. S. de Jujuy aproximadamente às 21h30, através do GPS do Álvaro encontramos um hotel legal e fomos descansar. Km aproximado do dia: 510.





Nessa etapa também senti uma solidão, logo depois de ser abandonado na estrada enquanto vocês se esconderam em Susques... hehe. E eu achando que vocês tinham seguido em frente comecei a acelerar pra ver se alcançava! haha
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